O que muda quando o processo vira sistema

O que a empresa ganha e o que ela perde quando um processo que rodava no combinado passa a rodar dentro de um sistema.

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Eric Grassi
·

This article is published in Portuguese.

Existe um momento na vida de uma empresa em que um processo deixa de ser combinado entre pessoas e passa a ser executado por um sistema. É uma transição maior do que parece, e ela cobra um preço que quase ninguém antecipa, além de entregar ganhos que quase ninguém nomeia. Entender os dois lados ajuda a decidir quais processos merecem essa passagem e quais é melhor deixar no combinado.

O que se ganha

Consistência

O processo passa a acontecer do mesmo jeito na terça-feira e no dia 30, com a pessoa experiente e com a recém-contratada. Para uma empresa que quer crescer, isso é o ativo principal.

Memória

O que aconteceu fica registrado sem depender de alguém lembrar de registrar. Seis meses depois, dá para responder por que uma decisão foi tomada.

Visibilidade

Quem precisa saber o status consulta em vez de perguntar. Some uma quantidade grande de interrupção que ninguém contabilizava.

Escala sem proporcionalidade

Dobrar o volume deixa de exigir dobrar as pessoas envolvidas naquela etapa.

O que se perde

E aqui está a parte que raramente é dita.

Flexibilidade informal

O combinado permite exceção instantânea: "nesse caso a gente faz diferente". O sistema não permite, ou permite com esforço. Para o cliente que era atendido pela exceção, a experiência piora.

Conhecimento tácito

Quando o processo vira sistema, a parte que estava na cabeça das pessoas e que nunca foi escrita simplesmente some do fluxo. Se ela não for capturada antes, ela desaparece, e ninguém percebe até o caso raro aparecer.

Velocidade de mudança

Mudar um combinado leva uma conversa. Mudar um sistema leva um chamado, uma fila e um teste. Para processos que ainda estão evoluindo, isso é um custo real.

Sistema congela processo. Congelar é ótimo quando o processo está bom, e caro quando ele ainda está sendo descoberto.

O critério para decidir

Um processo está pronto para virar sistema quando:

  1. Ele acontece com frequência suficiente para justificar.
  2. As exceções são conhecidas e cabem em regra.
  3. Ele não mudou substancialmente nos últimos meses.
  4. Existe alguém que responde por ele.

Se algum dos quatro faltar, vale organizar o combinado primeiro: escrever, padronizar, estabilizar. Sistematizar o que ainda está mudando é pagar para transformar indefinição em código, e depois pagar de novo para mudar.

A transição que dá certo

Não é técnica, é de conversa. Três coisas ajudam:

  • Capturar as exceções antes. Pergunte a quem executa: quando é que a gente faz diferente? Cada resposta é uma regra que faltava.
  • Manter uma rota de exceção. Sistema sem porta de exceção gera trabalho por fora, em planilha paralela, e você volta ao ponto de partida com um sistema a mais.
  • Explicar o que muda para quem. Quem perde autonomia informal precisa saber por quê, ou vai contornar o sistema, e contornar é sempre possível.

O que quase sempre é subestimado

O cadastro. Sistema funciona sobre dado estruturado, e o combinado funcionava sobre dado impreciso que as pessoas interpretavam. Essa passagem exige limpar o que estava tolerável, e esse trabalho costuma ser maior que a configuração do sistema.

Perguntas frequentes

Todo processo deve virar sistema?

Não. Processo raro, com muita exceção e julgamento humano no meio, funciona melhor combinado e bem documentado. Sistematizar aí custa mais do que entrega.

E se a equipe resistir?

Resistência costuma ser informação. Ouça o que ela diz: em geral aponta uma exceção real que o desenho não contemplou.

Dá para voltar atrás?

Dá, e vale planejar isso desde o começo: manter o processo anterior documentado por um tempo, e não apenas desligado.

O caminho antes do sistema

Documentar, simplificar e padronizar vêm antes de sistematizar. É a ordem que faz o sistema receber um processo bom em vez de congelar um processo confuso.

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Fontes

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