Gestão por processos (BPM): o que é e como começar

O que é gestão por processos (BPM), como ela difere da gestão por departamentos, o ciclo de vida de um processo e como uma PME pode começar sem burocracia.

ER
Eric Grassi
·

Gestão por processos, ou BPM (Business Process Management), é uma forma de gerir a empresa olhando para o trabalho de ponta a ponta, do pedido do cliente à entrega, e não apenas para cada departamento isolado. Na prática, significa identificar os processos principais, dar a cada um um dono, medir o desempenho e melhorá-lo continuamente. Uma PME pode começar com poucos processos, sem software específico e sem criar uma área nova.

O assunto costuma assustar donos de pequenas e médias empresas, porque chega cercado de siglas, certificações e ferramentas caras. A ideia central, porém, é simples e muito prática: o cliente não enxerga os departamentos da sua empresa. Ele enxerga o processo que atravessa todos eles. Quando ninguém é responsável por esse caminho inteiro, os problemas caem nas fronteiras entre as áreas.

O que é gestão por processos?

A metodologia de gestão de processos da Controladoria-Geral da União adota a definição do BPM CBOK, o guia de referência organizado no Brasil pela associação de profissionais da área (ABPMP). Segundo essa definição, BPM é uma disciplina gerencial que integra as estratégias e os objetivos de uma organização com as expectativas e necessidades dos clientes, por meio do foco em processos ponta a ponta.

A mesma definição lembra que BPM engloba estratégias, objetivos, cultura, estruturas, papéis, políticas, métodos e tecnologias. É uma forma de gestão, não uma ferramenta. Software de BPM existe, mas é a parte final, não o começo.

Qual a diferença entre gestão por processos e gestão por departamentos?

AspectoGestão por departamentosGestão por processos
Pergunta centralMinha área está cumprindo sua parte?O cliente está recebendo o que precisa, no prazo?
IndicadoresPor área (vendas, produção, financeiro)Ponta a ponta (prazo total, qualidade da entrega)
ResponsabilidadeChefe de cada áreaDono do processo, além dos chefes de área
Onde os problemas aparecemNas passagens entre áreas, sem donoVisíveis no fluxo, com responsável
Melhoria típicaOtimiza cada área separadamenteOtimiza o fluxo inteiro

A gestão por processos não elimina os departamentos. Eles continuam existindo, com suas equipes e competências. O que muda é que, além deles, alguém olha o caminho inteiro e responde por ele.

Um exemplo comum: o comercial bate a meta de vendas, a produção bate a meta de eficiência e o financeiro reduz a inadimplência. Ainda assim, o cliente recebe com atraso, porque o pedido espera dias entre uma área e outra. Cada departamento está bem; o processo está mal.

Qual é o ciclo de vida da gestão por processos?

Os modelos variam no número de etapas, mas seguem a mesma lógica. A metodologia da CGU descreve gerenciar um processo como realizar o conjunto de procedimentos de priorização, conhecimento, análise, transformação, gerenciamento de desempenho, monitoramento e reavaliação. Numa versão enxuta para PMEs:

  1. Priorizar: escolher quais processos merecem atenção primeiro, pelo impacto no cliente e no resultado.
  2. Entender: mapear como o processo funciona hoje, com fluxograma, tempos e problemas.
  3. Analisar: identificar gargalos, retrabalho, esperas e etapas que não geram valor.
  4. Redesenhar: definir como o processo deve funcionar, com responsabilidades e regras claras.
  5. Implantar: colocar o novo desenho em prática, com treinamento, procedimento e, quando fizer sentido, sistema.
  6. Monitorar: acompanhar indicadores do processo e corrigir desvios.
  7. Reavaliar: revisar periodicamente, porque clientes, volume e tecnologia mudam.

Para representar os processos, a notação mais difundida é o BPMN (Business Process Model and Notation), mantido pelo Object Management Group. A própria CGU a adota por facilitar a comunicação. Para começar, porém, um fluxograma simples basta.

Como uma PME pode começar a gestão por processos?

  1. Liste os processos principais. Em geral, cabem numa folha: vender, entregar o produto ou serviço, faturar e cobrar, atender o cliente depois da venda, comprar, contratar. O post sobre inventário de processos detalha como fazer essa lista.
  2. Escolha um ou dois para começar. Os que mais afetam o cliente ou o caixa.
  3. Nomeie um dono para cada um. Alguém que responde pelo resultado do processo inteiro, mesmo que não comande todas as áreas envolvidas.
  4. Desenhe o processo atual. Com quem executa, e não apenas com a liderança.
  5. Defina dois ou três indicadores ponta a ponta. Prazo total, taxa de erro, satisfação do cliente naquele ponto.
  6. Melhore em ciclos curtos. Uma mudança de cada vez, medida antes e depois.
  7. Crie uma rotina de revisão. Uma conversa mensal do dono do processo com as áreas envolvidas, olhando os indicadores.
  8. Só então pense em sistema. Automação e software de processos entram quando o processo está claro e estável.

Exemplo ilustrativo: o processo de entrega numa indústria pequena

O exemplo é fictício. Uma fabricante de embalagens com 60 funcionários tem reclamações recorrentes de atraso. Cada área se defende com seus números: vendas fecha os pedidos no prazo, a produção cumpre a programação, a expedição despacha no mesmo dia em que recebe.

A empresa nomeia a gerente de operações como dona do processo "do pedido à entrega" e mede o prazo total pela primeira vez. Descobre que, dos doze dias médios, quatro são de espera entre a venda e a entrada na programação, porque o pedido aguarda a conferência técnica, feita uma vez por semana. Nenhum departamento via esse tempo, porque ele não pertencia a nenhum deles. Com a conferência passando a ser diária, o prazo total cai sem que nenhuma área precise trabalhar mais.

Quais os erros mais comuns na gestão por processos?

Gestão por processos não é desenhar processos. É dar a alguém a responsabilidade pelo caminho que o cliente percorre.

  • Começar pelo software. Uma ferramenta de BPM sem processos claros e donos definidos vira repositório de desenhos.
  • Mapear tudo antes de melhorar algo. Projetos que tentam documentar a empresa inteira costumam perder fôlego antes de gerar resultado.
  • Dono do processo sem autoridade. Se ele não pode convocar as áreas nem propor mudanças, o papel vira formalidade.
  • Indicadores só por área. Sem medida ponta a ponta, o processo continua invisível.
  • Tratar como projeto com fim. Gestão por processos é rotina, não iniciativa com data de encerramento.

Perguntas frequentes

BPM é a mesma coisa que gestão por processos?

Sim. BPM é a sigla em inglês para Business Process Management, traduzido como gestão por processos ou gerenciamento de processos de negócio.

Preciso de um software de BPM?

Não para começar. Planilhas, fluxogramas e reuniões regulares sustentam os primeiros ciclos. Software faz sentido quando há muitos processos, muitas pessoas envolvidas ou quando o processo vai ser automatizado.

Gestão por processos serve para empresa pequena?

Serve, e muitas vezes com mais facilidade. Em empresas pequenas, o dono do processo costuma estar perto do trabalho e as mudanças acontecem mais rápido.

Qual a relação entre gestão por processos e automação?

A gestão por processos prepara a automação. Um processo com dono, desenho claro e indicadores é muito mais fácil de automatizar sem replicar defeitos.

Do processo ao método

A gestão por processos é, no fundo, uma mudança de olhar: do organograma para o caminho que o cliente percorre. Essa clareza é o que permite aplicar método e, depois, tecnologia no lugar certo. O guia O Método da Inovação organiza esse percurso.

👉 Conheça o guia O Método da Inovação

Fontes

<!-- link interno sugerido: o-que-muda-quando-o-processo-vira-sistema --> <!-- link interno sugerido: quando-a-automacao-quebra-dono-do-processo -->

Aplicar

Quer aplicar isso no seu negócio?

Uma conversa gratuita pra entender o seu contexto e decidir, juntos, se faz sentido seguir.